Monday, 6 March 2023

Concepção


No equador da onda,
o vento dança ao som da pedra;
deusa da margem:
vive a sereia sob encanto da terra.


Tempestade que irriga a alga,
alento do incessante baile.
Não apraz a onda o riso:
hiperbólica cor marfim de areia.


N’um mundo possível,
-embora possível no mundo meu-
soletrará a pedra o eterno canto.

Possibilidade


Dos encantos da ciana matriz
brota em canto terra do castanho
que em pensamento colore o caule,
areia da planta alimento e fonte
da padronizada geståo do molde
também matriz nalgum recorte.


Vida é tudo com o que sonhamos,
isto ou aquilo nalgum recanto
feito melodia o que recanto":
...também matriz nalgum recorte.

Trajectória


Mudo altar véu a solidão;
anelamento da inocência:
da impotência do leito.


Sabe viver sem vida ter,
sem construir, o azul,
castanho ciano com aroma denso,
imagem de terra sabendo a nuvem,
do cintilar, fazer dos feixes o cobertor;


despertar, da euforia da foz,
de longe, salvar do mar a vaidade,
aliciante, cor de aroma contagiante.

Fervor


Se sou, então saiba:

sou antes de tudo pelo mel,

era fel em palavra alheia, cravo ou dor

da verdade que sobre a pureza aterra nua e crua.


Cá, saiba:

há abundâncias com estados naturais,

prazeres adiados pela insensibilidade celestial,

e lágrimas são rítmicas no raso interior deste ente.


Segundo:

sou para terceiros quem rastreia destinos

que também obcecados pelo ciclo do infinito

abraçam-no forte perante a sua ausência,

saudade é o corpo

de chamas cujas questões ainda tocam a sua existência.

Não se me inunda a vastidão do vazio,

nunca houve entulhos que não fossem marfins perfumados

ornamentando agora o mundo que é este todo

e mais nada das partes que conheço.


por último:

sou porque sou, pois lá fui o que é cá tão distante....

que se afogavam os remos,

se a vela balançasse.

Realidade


A nuvem reflecte projecções deformadas,

o vento abstrai-as e nelas inspira as suas cantigas,

o coração é embalado pela aprendizagem de novas formas

ao ritmo das cantigas projectadas pelas nuvens.


Vive no coração uma paixão adormecida

fruto dos dessabores oferecidos pela vida;

verdade é harmonia entranhada na melodia

aprovada pelos mestres do universo em sintonia,


a paixão vai além do ouvido ou já visto

eis que o coração em ressonância apela o eco

que estimula a paixão, vezes repetidas

e é real o sorriso então plasmado.

Nenhures

 


Certas vezes, no desconhecimento do tempo, da ilusão

da possibilidade da pragmatização abstracta... da coesão,

penso nas lições que me davam os pensamentos, os sentimentos,

a existência ou o seu conhecimento: sou!

-Torna-se é o que foi, ou o anseio que vibra por um futuro nalgures;


Sou ritmo desarmónico em ouvidos alheios, inerte elo.

Acaricio a distância e o horizonte acolhe-me. Afasto-me da fonte?

Em versos sou livre e faz-se-me senda cada estrofe

cujas entrelinhas descrevem o nada que é então tudo.


Nas mesmas vezes, conheço a vida de cor e sufoca-me o todo

vazio de pensamentos, sentimentos e lições, segreda-me o mistério

que o tempo é sábio mas que a realidade é ilusória,

Que a tristeza é fruto do ritmo desarmónico, e que a treva porta?


E em vezes sem conta não sou! Lembro-me da inexistência

é mudo o seu som, indefinido o seu tom, incolor o seu olhar,

é indetectável a sua vibração, nela não há anseio e nem algures

há é o nada indecifrável pelo mistério.

Frustração

 


Sonoro vácuo alento dos ecos

de padronizada natureza indecifrável para o monte

de terras distantes nas quais o corvo

é o alento dos ecos e da sua natureza a fonte,


defines o monte que pousado sobre o tempo

trilhou sendas e em terras distantes

não reconhece a padronizada natureza dos ecos

embora entenda o seu alento pelo cérebro brilhante;


caso o monte molde a sua essência usando o cérebro

sará da rejeição dos ecos que padronizados amesquinham-no:

que o tempo guarde a sua virtude e o coração nobre,

que a eternidade acolha-as e a história retrate-os!

Distância


A distância doma a curiosidade

tornando a essência celestial este verde ciano,

associada a beleza cujo os olhos

crerão ser o único encanto que o destino os reserva.


Gostava é que a distância domasse o passado

e este medo que então presente

enevoa o futuro que me é tudo;

daí, aquela distância associada a esta beleza

pousava sobre o medo e clareava o futuro

Saudade

 


A brisa entoa cantigas antigas

fala do tempestuoso beijo, do sorriso

eis que a memória baila sintonizada ao ritmo

que invoca a alegria de mãos dadas com o sonho

quando a realidade era ingénuo e o universo verdadeiro;


tal como o encanto encontra amparo na onda

que transcende a constância compreendida pelos olhos

a cantiga porta uma entranhada eternidade

que remedeia as chagas na alma que a escuta;

queira este apaziguo que a brisa nunca emudeça.

Ser


Define o verde a metamorfose,
saber dote da índole que se espelha
no anseio de se reflectir cinza,
amarelo ciano florescente negro
-ser na fusão da pureza a natureza-.


Sonho é tudo o que vivemos:
quem somos nós se não nós mesmos?
Na constância nunca os mesmos,
quando os mesmos peca o desejo

Anseio


No liquido reflexo do tempo
o canto vê-se a molhar o desejo
irrigando o pensamento secular
que sobrevive da humidade do sonho;


adormece a ansiedade o alento
-encanto que se atém ao marfim-
Incidência desfoque do fim:
alto mar mera margem o maxilar.

Ritmo


Morangos sabendo a memórias, gesto distante
por pertencer aos que se permitem encantar,
pelo orvalho, em pleno túmulo e sua exaltação;
torna-se leve a sensação que beija, que afaga
que sem que ao supremo -ou a isto que não desprezo?-
atrele-se. Há lindos e tantos rios na berma da estrada
que liberdade se ignora por vaidade de escolha?


Pode ser que sim, que ela o torne (retorne?) ou não, e em não,
talvez, se calhar, embora quase nunca calhe, quem sabe um dia?
Tão simples, sem prescrições ou sendas
extremas e estreitas;


Há também ares que acolhem rumos, mapeiam nuvens
que por sua vez, acolhem tristezas e este dia, aquele
cuja saudade é amarela, sorrisos de sol e tu, lua que encantas
a eternidade instantânea que é sempre tudo,
se boa, há então vezes que a desconhecem;
defini-se pela luz, sua velocidade ou também vaidade,
o tempo que é teto ou leve palco: deus das possibilidades.


Mas espera! Pelos céus ou pela terra, pois te digo: sei
que sem esforço o meu braço toca em dimensões
que eu desconheça ou as tenha projectado.


Viver é fácil e fascinante, tem este brilho
que bem o conheço, tanto quanto sei o seu segredo.

Beleza


Águas cinzentas, e a realidade absolve a vastidão infinitamente

é ser o que não se é culpa do cristal que assim te vê

e não poder ser diferente do que se é pela indiferença

fruto da realidade que abraça realidades não roseadas;


tocar a tristeza e o mundo sonhar debaixo das lágrimas celestiais

rindo-se tão humanamente pela ausência de sal trazido à razão

e nada mais ser tão feliz naquela eternefemeridade.


Não importava o mundo caso eu fosse a razão da sua criação

nem a morte se fosse invenção minha, sabem-nos os crentes

e quem sabe a tristeza não moldava a essência do sábio?


É contemplar ecos que te tomam por fonte, de alma encenerrada

abraçar a impotência enquanto o mundo fascina-se

definires-te pelo que te é alheio, por assim te conceber o mundo.

Ente


Entre as tão justamente poucas realidades

do sonho,


experimenta um aroma, suavemente, a ousadia:

do destino sempre justo,

-era a única verdade que ele portava-

sem pensamentos seculares, livre

da distância e dos sentimentos!


Vê! Vê sim! Que pertencendo ao mar e ao sol,

adormecidas, as estrelas amarão...

o que a claridade tomar por oferenda.


Alcançará os olhos teus

a palma que então te acolhe

se trilhares milha de distante essência,

distante da tua;


Suspira sempre ornamentando o gozo,

que a vida é também obscura.

Tipicidade


Ternura ausente, o brilho das velas apagado: fim da fantasia.

Navios mensageiros propagando desencantos, de mãos dadas com a esperança

faz-se-me lar esta alma que céptica não mais me agasalha

sou em si tudo mas o que deveras o sou: amor;


sou o leve toque que o abriu as portas do universo

-revigoração do instante no qual sou plenitude e absolvo o cosmos

sou guia do riso estampando os lábios em uníssono

embora a perdição do abismo que obstrue o alcance da felicidade

alegre lembrança causa deste triste presente;


de mãos dadas a cumplicidade, trouxe luz às trevas por eternidades

nalgures... foi frio o meu cobertor; noutras, entre o choque de almas,

impossibilitado de ser eu mesmo pela experiência

fui lá aquilo e cá isto mas o que deveras o sou: amor.

Estático intento


Define o verde a metamorfose,
saber dote da índole que se espelha
no anseio de se reflectir cinza,
amarelo ciano fluorescente negro
-ser na fusão da pureza a natureza-.


Sonho é tudo o que vivemos:
quem somos nós senão nós mesmos?
Na constância nunca os mesmos,
quando os mesmos peca o desejo.

Tristeza


Vento atendo-se ao trilho
dum passado desconhecido,
flor seguindo o vento
pela instrução do por si vivido;


caminhos solitários
cujo mapa então ignora
foram outrora grandes palcos
nos quais a glória ganhou vida.


O tempo é mágico e a fantasia
conhece a estória do dia a dia;
o hoje é feliz, mas por cobardia
deste tempo que não te protagoniza
agasalha-te o manto da agonia
oh vento ou mar de errante sina.

Ciclo

 


Inúmeras canções tentaram abafar o fim:

no palco a felicidade, a glória duma eternidade

rastreando oceanos do pico das suas asas

alimentando-se da vida oculta pelas ondas do seu gozo;


a beleza nocturna

feito um obstáculo obstrue o horizonte,

misteriosos punhos despidos de sonhos de fadas,

leiais a esta jornada um tanto árdua:

desfazendo as alturas instantaneamente.


Montanhas e nuvens partilham as suas manhãs

na esperança de dissociarem a surpresa da renascença

para que as águas livrem-se da surdez

e entoem a canção entranhada no seu âmago,


e do pico das suas asas, o fim

sinta esta existência que é sua. Ciclicamente!

Impressão


O mistério segredou-me os contornos do tempo

na berma duma felicidade nunca vivida

quando o amor atrelou-se na fantasia

inconsciente da sua existência ilusória;


mas se a beleza o coração sempre invoca,

que importa a existência neste reino cuja fragrância

dá luz a um encanto irreal para alguns olfactos?

Oh! Lá vai a tola violeta lavrar as lágrimas

nos campos infertilizados pela sábia prudência:

di-lo-ão as vozes duma experiência desiludida;


na fusão das cores perde-se a essência das envolvidas,

e nem sempre é fascínio o produto contemplado!

que era do marrom se após a castanho então fundido

com o preto o vermeho tivesse cedido

a desist6encia que sempre apela por vencidos.

....Versus destino


Sem que me notasses, então muda a canção dos montes

teu coração enchagado e cansados os olhos teus,


estilhaçado o cristal matriz do teu brilho

feito interpérie o vento que é briza vinda a bonança

fiz-me o alvorecer e tomei a essência dos lírios, de seguida

mergulhei no teu entranho e foi de fadas aquele toque

feito mágico, não mais houve lágrimas e riram-se os céus;


sem que me notasses, então muda a canção dos montes

face ao abandono, dei luz ao recomeço, ensinei-te o perdão:

o fim é cíclica obra do tempo, e a mágoa transitória

repele o gozo o negro no peito de quem o porta.


Não me notas, é audível a canção dos montes

irrelevante tua trajectória, apenas lágrimas conhecem-te o fim

mas... o riso é tão melhor do que o antónimo

que somente a felicidade conheça-te o fim.

Realidade


Rios choram milagres

à luz daquele sorriso, tão radiante

que não existia antes da terra

descobrir as suas raízes este que então floresce-

na morte do desespero, este bravo aroma

desenhando rumos e entoando canções

atendo-se...

ao que a eternidade sempre julgará.


A lua revela seus contos de ternura

-era uma vez-, é uma questão?

o narrador trás sangue e um inferno de contos paradisíacos

para vender e morrer, a cada vez que a mentira toca uma asa.

Chore rio, chore!... (ah! e honre o gozo).